18/09/2019 - 15h19

ANÁLISE TÁTICA: como os Rams venceram explorando a secundária dos Saints na semana 2

Sem Brees, a vida dos Rams foi facilitada, mas a chave do jogo está no outro lado da bola

LOS ANGELES, CALIFORNIA - SEPTEMBER 15: Cooper Kupp #18 of the Los Angeles Rams runs on a 67-yard reception during the fourth quarter as Marshon Lattimore #23 of the New Orleans Saints attempts to tackle him in the game at Los Angeles Memorial Coliseum on September 15, 2019 in Los Angeles, California

Para a temporada de 2019-20 da NFL vamos separar uma partida por semana para analisar taticamente nesse novo espaço do The Playoffs. Vou tentar trazer semanalmente uma análise clínica das estratégias das equipes olhando qual foi o planejamento para o jogo, o que deu certo e o que não deu certo, e o que é importante entender sobre alguns fatores que fizeram a diferença no resultado final.

Para abrir essa coluna selecionamos um dos jogos mais antecipados da temporada regular de 2019, o rematch do polêmico confronto do NFC Championship da temporada passada: Rams x Saints. Um confronto que perdeu um pouco do brilho com a infeliz contusão de Drew Brees no início da partida, porém continuou sendo um ótimo duelo tático entre duas grandes mentes ofensivas: Sean McVay e Sean Payton.

Wade Phillips (coordenador defensivo dos Rams) teve sua vida facilitada pela contusão de Brees? Sim. Acredito que isso facilitou muito a forma como o time conseguiu conter Alvin Kamara, mas depois da grande atuação de Christian McCaffrey na semana 1, vejo o time de Los Angeles entrando com a prioridade de conter Kamara independente de quem estaria atrás do center. O sucesso disso veio na forma como o time soube controlar a linha ofensiva dos Saints pelo posicionamento de Aaron Donald. O camisa 99 era movimentado em gaps diferentes da OL não para melhorar o seu rendimento, mas sim para abrir espaço para seus companheiros.

Pela segunda semana consecutiva Donald não registrou um sack sequer, porém teve grande impacto no jogo de uma forma tática e não só com sua pressão nos QB – que inclusive resultado na infeliz contusão de Brees. Onde Donald alinhava, havia uma congregação de jogadores dos Saints. O defensor jamais ficava no mano a mano, são sempre 2 ou 3 jogadores o bloqueando, portanto quando ele alinhava por dentro, sempre chamava alguém para ajudar o center calouro Erik McCoy e isso abria espaços para Dante Fowler ou Clay Matthews pressionarem por fora, ficar no mano a mano e em alguns momentos até correr livre atrás da bola.

Essa defesa dos Rams tem vencido pela explosão dos jogadores que alinham por fora. Contando também com a velocidade de Cory Littleton e do calouro Taylor Rapp, que se posicionava praticamente como um ILB, sempre havia vários jogadores dos Rams em volta de quem recebia a bola perto da linha de scrimmage. Como Kamara é um jogador que rende muito mais com a bola no espaço e não em um corredor apertado, os Rams desfiaram Teddy Bridgewater a vencer o jogo com o braço. O resultado foi uma defesa que mais uma vez não cedeu um TD pelo ar, e nessa semana também não cedeu pelo chão também.

Uma ótima atuação defensiva da linha defensiva de New Orleans não foi o suficiente para conter o ataque dos Rams, porém existem alguns fatores que podem animar o torcedor dos Saints e que demonstram que talvez está na hora de mudar o foco desse time do ataque para a defesa. Durante grande parte da partida, a pressão vinha exclusivamente de 3 ou 4 jogadores de linha. A defesa sentava em zone e forçava Jared Goff a ler os espaços defensivos. Com poucos jogadores encarregados de penetrar a OL, a defesa dos Saints dedicava mais jogadores à cobertura, limitando os espaços disponíveis para Goff.

Normalmente essa estratégia abre bastante espaço para o jogo terrestre, mas Cam Jordan e Marcus Davenport venceram os duelos individuais com frequência e expuseram a fragilidade dos guards dos Rams. A equipe de Los Angeles não conseguiu correr por dentro e foi forçada a correr efetivamente com sweeps e tosses, jogadas em que os running backs corriam por fora da OL, o que não é o ponto forte desse time que bloqueia em zona tentando controlar os corredores para os RBs. Goff também continuou sendo pressionado pelo pass rush, e em um desses momentos até soltou o fumble que poderia ter mudado a partida – se não fosse o erro da arbitragem.

Se a DL dos Saints foi efetiva nesse jogo, expondo as deficiências da OL dos Rams, o ataque aéreo de Los Angeles revelou uma grande fragilidade nesse time dos Saints: a falta de velocidade na secundária. Pela segunda semana consecutiva, o setor sofreu quando desafiada na corrida pelos wide receivers rivais. Marshon Lattimore e Eli Apple (longe de jogar no nível do ano passado) não conseguiam acompanhar os WRs dos Rams no mano a mano. Dois lances chamaram atenção. O passe de 57 jardas para Brandin Cooks e a corrida de Cooper Kupp após receber o passe de Goff no último quarto, que merecia ter sido o primeiro TD dele no ano.

Revendo o lance de Cooks, olhe o espaço que Lattimore dá entre ele e o adversário antes do snap. Na sequência, ele jamais consegue encurtar o espaço entre os dois. Cooks corre uma rota direta e recebe a bola por cima, sem ser perturbado pela marcação. Basta olhar os melhores lances de Goff no jogo. Em momento algum você os Saints alinhados em “press coverage”, pressionando os WRs na linha de scrimmage, facilitando que Goff e seus recebedores alinhassem a sintonia e tempo das rotas durante o jogo. Pra piorar, a secundária demorava para mudar de direção, demonstrando uma falta de velocidade lateral. Por isso, McVay abusou dos passes de média distância, deixando seus recebedores pegando os passes na hora de trocar de direção nas rotas.

Os Rams acabaram tentando vários “bubble screens” para os WRs, lances em o passe chega rápido para o recebedor aberto na linha de scrimmage, o que resultou em algumas jogadas efetivas e confundiu ainda mais a cobertura de New Orleans. McVay enxergou essa dificuldade dos cornerbacks de acompanhar as rotas longas e a lentidão em mudar de direção e aproveitou muito bem disso no segundo tempo, especialmente com uma defesa mais cansada. Se a OL conseguisse segurar um pouco mais o pass rush, certamente teríamos um jogo com mais passes de 50+ jardas de Jared Goff.

O ataque dos Saints acabou não sendo efetivo nessa partida. Claro que a saída de Brees teve grande influência nisso, mas vejo a qualidade de McVay em enxergar e aproveitar essas fragilidades físicas na secundária dos Saints como a grande vantagem tática no jogo. Em 2019, os Rams são um time que buscam abrir espaço para o jogo terrestre, entrando em ritmo com seu jogo aéreo, e McVay, depois de um SB sem inspiração, parece disposto a entrar para os jogos com o intuito de adaptar seu ataque para explorar as fragilidades defensivas que ele enxerga no jogo.

Já os Saints precisam acrescentar uma pouco mais de fisicalidade nessa secundária (ouvi dizer que Jalem Ramsey está no mercado), porém essa defesa tem potencial para conseguir carregar o time enquanto Brees se recupera.

Por Raphael Fraga

(Foto: Sean M. Haffey/Getty Images)

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