10/08/2017 - 20h00

[ESPECIAL] De Yan Gomes a Eric Pardinho, a abertura do caminho para o Brasil na MLB – parte 2

Com as franquias da MLB de olho no Brasil, o que é possível esperar para os próximos anos?

A primeira parte do ciclo virtuoso está pavimentada: como o The Playoffs mostrou na semana passada, a estrada foi construída durante cerca de uma década (com mais rapidez desde 2012) e o Brasil é, atualmente, um mercado que desperta a atenção de franquias e da Major League Baseball. Isso levanta uma pergunta sobre a segunda parte do ciclo: como fazer para que esse cenário “seja eterno enquanto dure”, evitando o retorno a tempos distantes em que o atleta brasileiro tinha oportunidades mais limitadas para mostrar seu talento?

Ouvidos por nossa reportagem em janeiro, quando a safra formada por Eric Pardinho, Victor Coutinho, Vitor Watanabe, Heitor Tokar e Christian Pedrol já chamava a atenção das franquias, mas sem nada de concreto, Barry Larkin e Steve Finley falaram sobre um cenário positivo para os próximos anos no beisebol brasileiro. O manager e o técnico de rebatedores do Brasil nas eliminatórias do World Baseball Classic concordam que, com a Academia da MLB, segunda etapa do projeto que começou com o Elite Camp, a tendência é de um processo cada vez melhor, o que culminaria em atletas (e técnicos) mais preparados.

Para Finley, trata-se de concentrar um modelo de sucesso. “Durante o Elite Camp, reuníamos os principais jovens jogadores e os técnicos para trabalhar conosco, e o conhecimento era compartilhado para que, voltando às suas cidades, eles ajudassem seus colegas. Agora, você terá técnicos (na Academia) ajudando os jogadores ao longo do ano todo, e o desenvolvimento será muito mais rápido”, explicou o ex-outfielder campeão da World Series em 2001 com o Arizona Diamondbacks.

Com o peso da imortalidade garantida no Hall da Fama do esporte, Larkin concorda, e vê a academia (além da influência dos jogadores que chegaram à MLB, citada na primeira parte da reportagem) como fatores fundamentais para a decisão dos garotos. “Espero que, quando precisem escolher entre futebol e outros esportes, os atraia jogadores mais jovens escolham o outro esporte, no caso o beisebol”, diz o ídolo do Cincinnati Reds, técnico do Brasil no WBC de 2013 e presença frequente nos eventos da Major League Baseball para o desenvolvimento do esporte no país.

Caleb Santos-Silva, coordenador internacional de desenvolvimento, aponta que a quantidade de brasileiros que assinaram com franquias da MLB pode cair um pouco em 2018, mas a curva de talento deve ser ascendente. “Talvez, em 2018, o número de atletas assinando contrato seja menor, mas a ideia é que a quantidade de prospectos aumente a cada ano”, explica ele antes de enfatizar as razões que levam ao aumento da qualidade.

“Desde a 1ª edição do Elite Camp, aumentou muito o conhecimento técnico no país, o nível do ensino técnico e o interesse subiram e quem já estava jogando tem uma razão para continuar no esporte, pois há um caminho de saída para o exterior. As franquias estão percebendo o talento que há no Brasil, que o nível dos jogadores está melhorando, e mais pessoas são contratadas para atuar como scout”, conclui ele. Ou seja, as primeiras sementes germinaram, e os frutos começam a ser colhidos.

A comprovação disso fica clara na visão de Andrew Tinnish, assistente do general manager do Toronto Blue Jays, Ross Atkins. Na cerimônia de assinatura do contrato-recorde de Eric Pardinho, Tinnish confirmou que o Brasil é um país a ser olhado com carinho. “Quando você vê um jogador como Pardinho, com tanta habilidade nesse estágio da carreira, você precisa perguntar-se ‘o que mais há aqui, é preciso que exista outros jogadores com tanto talento’. Pode ser que isso não ocorra em 2018 ou 2019, mas no futuro, se continuar o desenvolvimento, pode haver um jovem talento semelhante a Pardinho, ou Luis Gohara, e se não estivermos de olho, vamos perder”, garantiu ele.

Dois jogadores resumem bem o resultado dessa soma de fatores positivos: Leonardo Reginatto e Andre Rienzo. “A geração que está vindo é muito boa, e tudo isso é resultado de um processo que começou até com jogadores que vieram antes de nós. Em poucos anos, acho que bem mais brasileiros estarão atuando na MLB”, apontou Reginatto, atualmente no Triple-A do Minnesota Twins. Andre, que recupera-se de uma lesão no cotovelo que sofreu defendendo o Triple-A do San Diego Padres, tem visão semelhante, e cita o aumento do interesse. “Com o Elite Camp e a Academia da MLB, há mais olheiros, geralmente mandam até um chefe dos scouts”, afirma o primeiro arremessados brasileiro a chegar à Major League Baseball.

Um dos olheiros é Thiago Ramos de Sousa, que faz as observações para o Houston Astros. Ele confirma ao The Playoffs que a mudança de cenário no beisebol nacional não foi pontual. “Durante o processo de assinatura do Pardinho, o Andrew Tinnish comentou que o Toronto Blue Jays quer ter um olheiro no Brasil. Isso mostra a preocupação de uma franquia estar presente no país. Acho que veremos olheiros do Colorado Rockies, do New York Yankees, de outras franquias, com mais frequência no Brasil”, ressalta um dos envolvidos no processo que levou Heitor Tokar e Victor Coutinho à franquia do Texas.

Thiago destaca outra mudança que, em sua visão, é consequência do aumento na quantidade de brasileiros fechando contratos com as franquias dos Estados Unidos. “Está mudando a história da assinatura, com a chegada dos agentes internacionais. Inicialmente, veio o Rafa Nieves (agente que atuou na negociação dos Blue Jays com Eric Pardinho), e deu muito certo a conversa com a família do Pardinho, que viu a importância de contar com um profissional nesse momento. Antigamente, o auxílio aos jogadores nessa situação era dado pela Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol, que tem seus interesses, e a mudança é ótima para o beisebol brasileiro”, aponta ele.

Já que Rafa Nieves foi citado, é interessante ouvir o que o agente tem a dizer, e não é surpresa dizer que sua opinião está de acordo com a dos demais entrevistados. “Acho que o Brasil vai tornar-se um celeiro de jogadores de beisebol, por conta do nível atlético excepcional como em outros países da América Latina. Vi como a Venezuela explodiu e acredito que isso ocorrerá aqui também. Esse é um mercado que precisa de atenção, não me surpreenderei se em 2018 oito ou nove jovens jogadores assinarem com franquias da MLB”, confirma o vice-presidente da poderosa agência Wasserman.

Porém, nem tudo são flores, e essa reportagem encerra-se com um alerta que vem em tom de pergunta feita exatamente por Thiago Ramos de Sousa, como que lembrando, sobre a frase que abre a reportagem, pois o “que seja eterno enquanto dure” também acaba. “A geração de ouro continuará sendo de ouro enquanto a MLB estiver aqui, e acho que não há planos de saída, mas nada dura para sempre. A pergunta que deve ser feita é: o que os clubes (nacionais) estão fazendo para desenvolver os atletas sem a presença da Major League Baseball?”, questiona o olheiro.

Com a palavra, os dirigentes do beisebol brasileiro.

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Fotos: Rafael Pezzo/The Playoffs; Arquivo Pessoal; Divulgação/ MLB Brasil

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